O Piano Que Fez o Brasil Dançar: A Redenção Tardia de Benito Di Paula
Benito Di Paula partiu deixando um suingue inconfundível. Só na despedida a crítica concede a unanimidade que as pistas sempre souberam reconhecer.

O Som das Teclas Que a Crítica Tardia Tentou Ignorar
Para quem está atrás dos toca-discos desde 1999 garimpando a riqueza do groove brasileiro, o piano de Benito Di Paula sempre foi uma aula aberta de pista. Enquanto a crítica purista e a elite cultural dos anos 1970 insistiam em torcer o nariz — rotulando seu som de comercial, híbrido ou até "cafona" —, o povo nas ruas e qualquer DJ com ouvido apurado sabiam exatamente onde morava a verdade: na levada rítmica irresistível de suas mãos no teclado. É sintomático e agridoce que apenas na despedida, com sua partida aos 84 anos, a unanimidade e a reverência oficial finalmente o alcancem. Benito precisou nos deixar para que o establishment admitisse sua genialidade incontestável.
Samba-Piano, Molho Latino e o Calor das Pistas
Muito antes de misturas transcontinentais virarem tendência de produção moderna, Benito fundiu o samba de raiz ao suingue afro-cubano, criando uma linguagem rítmica absolutamente singular e autoral. Clássicos atemporais como "Retalhos de Cetim", "Charlie Brown" e "Vai Ficar na Saudade" não são meros sucessos radiofônicos; são pedras fundamentais do balanço nacional. Ao cruzar a dor visceral da melancolia romântica com uma cadência dançante sem paralelos, ele antecipou dinâmicas que conectam o funk soul, as batidas quebradas e as transições de house orgânico. Na minha bag de vinil, suas faixas sempre conversaram diretamente com o coração do público, rompendo qualquer preconceito de gênero musical.
Flores Chegam Tarde, Mas o Groove É Eterno
Nos últimos anos, movimentos como o álbum-tributo "Benito 80" e a consagração no Carnaval paulistano esboçaram uma merecida reparação histórica. Contudo, faltaram as grandes condecorações institucionais e o devido respeito do meio intelectual quando o mestre ainda podia desfrutá-los. Para nós seletores que entendemos a música pela vibração física e pela comunhão das pistas, Benito Di Paula nunca precisou de chancela de academias: o Brasil inteiro cantou e dançou ao seu comando. Seu legado não vai ficar na saudade, mas sim vivo em cada compasso sincopado que continuar girando nos pratos.
Fonte de referência: G1 Música
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