Comportamento

Verde e amarelo de quem? A música brasileira e a disputa pelas cores do país

Artistas vestem as cores da bandeira em ação nas redes e reacendem uma velha pergunta: a quem pertence o verde e amarelo que a música sempre cantou?

Por DJ Rodrigo Miranda· · 4 min de leitura
Verde e amarelo de quem? A música brasileira e a disputa pelas cores do país

Neste 17 de outubro, as redes amanheceram verdes e amarelas. Atores, músicos e apresentadores publicaram fotos com as cores da bandeira numa ação de apoio à candidatura de Lula no segundo turno. Entre os nomes estavam Alceu Valença e MC Cabelinho, ao lado de gente da TV como Gloria Pires, Renata Sorrah e Fernanda Gentil. A reação veio rápida e dividida: para uns, um gesto de reconquista dos símbolos nacionais; para outros, uma apropriação oportunista de cores que, na última década, passaram a ser associadas ao campo político adversário.

Não vou entrar na disputa eleitoral. Quem me contrata vem de todos os lados, e a pista sempre foi o lugar onde essa gente toda dança junto. Mas a discussão sobre as cores interessa a qualquer DJ que toca música brasileira, porque o verde e amarelo está dentro do nosso repertório há quase um século.

Uma bandeira que a música pintou primeiro

Em 1939, Ary Barroso escreveu "Aquarela do Brasil" e deu ao país uma trilha de exaltação que atravessou gerações. Décadas depois, a Tropicália brincou com esses mesmos símbolos, misturando patriotismo e ironia, guitarra elétrica e berimbau. Nos anos 1970, o samba-rock, o funk soul e a black music dos bailes do subúrbio do Rio e de São Paulo inventaram outro Brasil possível, sem pedir licença a ninguém.

Em 1984, foi a vez do amarelo das Diretas Já tomar as ruas, embalado por artistas que subiam no palanque para cantar. E toda Copa do Mundo o país inteiro veste a camisa e canta junto, seja no bar, no telão ou na pista.

Ou seja: antes de ser território de qualquer partido, o verde e amarelo foi trilha sonora.

O que muda quando as cores viram lado

A partir de meados da década passada, as cores da bandeira ganharam uma leitura política forte, e muita gente deixou de usar a camisa da seleção fora de dia de jogo. A ação desta semana tenta mexer justamente nisso. Se funciona ou não como estratégia eleitoral é assunto para analistas políticos. O que dá para observar de onde eu estou, atrás das pick-ups, é como um símbolo pode afastar ou aproximar pessoas.

Na pista isso aparece rápido. Toco "País Tropical" num casamento e vejo avô, noiva e primo dançando lado a lado, cada um com o seu voto. A música cria um intervalo em que a gente lembra do que tem em comum.

O papel de quem toca

Artista tem todo o direito de se posicionar, e muitos dos maiores nomes da MPB fizeram da canção um ato político. Ao mesmo tempo, o DJ tem uma função um pouco diferente: ler a pista e manter a energia de quem está ali, seja quem for.

Por isso, a minha aposta nessa discussão é simples: o verde e amarelo que interessa à pista é o do samba, do funk soul, do baile, da bossa remixada no house. É o Brasil que exporta groove para clubes de Londres, Berlim e Tóquio e que faz estrangeiro tentar sambar sem saber.

Depois do dia 25

A eleição passa, como todas passam. A música continua. Daqui a alguns meses vai ter Carnaval, vai ter Copa e vai ter casamento de gente que votou diferente na mesma família. Eu vou estar lá tocando Jorge Ben, Tim Maia e Marcos Valle, e torcendo para que as cores da bandeira voltem a ser de todo mundo que dança.

Fonte de referência: Folha Ilustrada

Compartilhar WhatsApp